15 de setembro de 2012

A gente bebe e fica afim de dizer eu te amo

E eu me pergunto por que aquelas primeiras duas horas na mesa nos deixam tão vulneráveis a pegar o celular e ligar para algum ex? Por que eu não aproveito as segundas insuportáveis do metrô lotado para xingar, ou até mesmo dizer "Amor, volta. Essa vida maluca de trabalho pesado é horrível sem você". Por que não faço isso quando estou lúcida?

Meu amigo chega e bate na porta. "Luana, me dá esse telefone. Não liga para ele, hein?". Tarde demais, já disquei o número. A coisa mais difícil do mundo é ter um amigo paquerador que cuide bem do seu celular. Aproveitei a primeira loira que passou, peguei o aparelho na mesa e saí andando e trombando em todo mundo para ligar para o meu último cara, o meu último alguém... peraí, ele não é mais meu.

E enquanto ele demora para atender, eu só fico pensando no que vou dizer. Me seguro para não chorar e me arrependo de ter exagerado na vodka. Espera, eu nem sei o que estou pensando direito. Por que ele não me atende? Quem demora para atender um celular às 3h45 da manhã? "Luana, para com isso, volta para a pista. A balada está cheia de cara para você". Eu sei amigo, mas ele sabia como conversar comigo. Ele chegava debochando de alguma coisa e falavamos por horas sobre vários assuntos, e nunca cansava, nunca. Ao contrário desses caras querendo cochichar no meu ouvido por causa desse som alto. E não, não vou para nenhum lugar mais calmo. Ok, eu sei que ele é um idiota. Tá, eu sei que mereço alguém melhor. Para de falar que ele atendeu.

"- Alô, tá me ouvindo direito? Tudo bem?
- Tudo sim e aí?"

E aí que eu disse eu te amo enquanto ele disse que eu ia ficar bem. Eu disse eu te amo enquanto ele quis saber onde eu estava, com quem eu estava e se eu tinha alguém para me levar para casa. Eu disse que o amava enquanto ele dizia que essas coisas iriam passar, que era muito recente, que já tentamos bastante e tentar de novo só iria nos machucar. Mas ele disse que eu significava muito para ele, que eu fui importante. Fui importante?

Ele sempre foi o mais racional. Ele sempre foi a cabeça pensante e eu a sonhante. Costumávamos dizer que a gente se completava, mas é preciso ser muito mais do que uma metade para fazer um relacionamento dar certo. Somos todos inteiros e não existe ninguém pela metade. A gente tem que tirar esse negócio da cabeça de que vai encontrar alguém totalmente perfeito ou que seremos a perfeição de alguém. Ou que quando acaba um relacionamento, não encontraremos mais ninguém. Além disso, ele usou "fui", no pretérito perfeito mesmo. Não existe amor no pretérito perfeito. Só quem quer seguir em frente é que usa o pretérito perfeito.  E aí que discutimos novamente e eu desliguei depois de dizer "Ninguém nunca vai te amar e ser tão legal com você como eu fui, 'tá me entendendo?".

Não sei se a minha ligação fez efeito, não sei nem se vai mudar alguma coisa eu ter conseguido desabafar o que sentia. Mas, eu explico ao meu amigo que aqueles três copos de bebida são os culpados pelo lapso de loucura que tive e peço desculpas por ter sido grossa com ele. Sim, você está certo, ele me machucou e nunca me mereceu. Sim, ele era um idiota e eu não sei porque ainda me sinto mal. É verdade, é melhor eu desligar esse celular.

E enquanto eu desligo o celular, eu fico pensando que meu amigo estava certo desde o começo. E se eu não tivesse ligado, eu não estaria nem um pouco com a sensação que estou agora. O meu ex poderia até estar pensando que estou bem, que me recuperei e estou me divertindo, ao invés de saber pela minha boca que ainda gosto dele. E não faço essas ligações no metrô lotado, porque nele sei o quanto não deu certo e o quanto foi difícil terminar. Nele eu sou menos impulsiva e mais racional até. A gente bebe e fica com vontade de dizer eu te amo, mas não é só isso. A questão é que a gente se toca que o ex é um idiota, mas é um idiota por quem a gente sente alguma coisa. É um imbecil, mas é um imbecil com quem a gente se importa. Existem muitas outras pessoas legais por aí sim, mas nenhuma delas me faz ter essa saudade ou me faz sentir o que aquele idiota me fazia. E agora?

E agora é que meu amigo vai ter que esquecer essa morena. Amigo, pega meu celular de novo e vê se cuida dele direito. Esconde isso e não me devolve nem que eu implore! Me leva para dançar, me faz esquecer disso. Não não, senta aqui e me dá colo. Eu bebi, e tô com vontade de dizer eu te amo. Não deixa.


4 comentários:

Nathalia Pacheco disse...

amei!

. disse...

E quando esse lapso de loucura não vem acompanhado de vodka?
Sempre me bate uma vontade de dizer "eu te amo" ou qualquer outra coisa que eu estou sentindo no momento, mas certa vez uma pessoa me disse que quando a gente fala muito a gente se expõe demais. Até onde agir dessa forma é necessário? até onde a recíproca é verdadeira? ás vezes a gente fala tudo que sente e acaba se machucando mais.

Julio Graziel disse...

Demais... Tudo aquilo que todos fazem mas poucos sabem descrever... se bem que eu sou suspeito pra falar dos seus textos...

Letícia Cardoso disse...

Não vou discordar quanto ao fato de que quando a gente fala muito, nós realmente nos expomos. Mas, vale muito mais a pena você dizer o que sente, ao contrário de segurar aquilo e perder alguma chance ou oportunidade, saca? É difícil encontrar um momento para dizer aquilo que pode tornar tudo diferente, mas é muito mais difícil seguir em frente se você não tiver certeza de que fez tudo que podia. Essa possibilidade de fazer algo a mais nos prende muito no caminho.

Você não precisa gritar aos quatro ventos e logo no começo das coisas, mas se passar algum bom tempo e você ver que ainda o mesmo, eu acho que vale a pena dizer sim.

Mas esse momento é só seu, você vai saber a hora certa de dizer o que quer.

é isso.